TRADIÇÃO E CONTEMPORANEIDADE

Um tsuru, figura que representa o pássaro no origami, é a marca do novo empreendimento do grupo Spettus no Recife: o restaurante Nikko Japanese Fusion. A designer Andréa Aguiar conciliou conceitos de tradição e contemporaneidade da cultura japonesa para compor a identidade visual presente desde os cardápios, às paredes do restaurante.

Móbile com estrelas


Para a amiguinha Máira de niver. Ela ainda não sabe, mas já está por aqui no Origami Clube.
Concepção: quatro estrela (três pequenas e uma média), com aplicações em bijouteria.

Borboleta


O crédito não é meu, mas é muito linda essa imagem das borboletas enfileiradas, viu?

A arte de fazer origami

Tradição oriental ganha popularidade entre os brasileiros

Por Lidianne Andrade

* matéria integrante do projeto impresso de conclusão do curso de graduação em Jornalismo pela Universidade Católica de Pernambuco. Direitos reservados.

Uma folha de papel, objeto que faz parte do dia-a-dia de todos, é a matéria-prima dos origamistas. Com algumas dobras, o papel torna-se garça, peixe, cubo, estrela e tudo o mais que a imaginação permitir. Com criatividade, origamistas criam belas obras de arte e atraem cada vez mais novos adeptos ao redor do mundo.

O origami até hoje não tem origem definida. Pesquisadores apontam como provável ter sido criado na China ou Japão, sendo o mais provável na China, pois foi onde surgiu o papel por volta do século VII d.C. No mundo oriental, é uma prática familiar tradicional transmitida de pai para filho, utilizado como passatempo, decoração de ambientes e templos sagrados.

No Brasil, chegou com a imigração japonesa a partir de 1908, mas difundiu-se entre os não descendentes na década de 1960, pelas mãos da professora Yachiyo Koda. Começou sendo ensinado em rodas de amigos por descendentes de orientais. Hoje em dia, as dobraduras são difundidas em oficinas, livros, aulas de geometria no ensino básico e uma das principais fontes de troca informação, a Internet. Não há estatísticas sobre o número de origamistas no Brasil, mas os dobradores multiplicam-se no país e isto pode ser observado pelo número crescente de origamis encontrados nos mais diferentes contextos.

Seja por prazer, curiosidade ou por seus benefícios à saúde, o origami vem fazendo parte do cenário artístico do Recife em exposições e feiras artesanais, como a tradicional Feira Japonesa, realizada anualmente no final de novembro. Muitos dobradores começam a prática na infância, como o origamista Rodrigo Cruz, que aos 10 anos dobrou seu primeiro tsuru (pronuncia-se tisuru), ave símbolo da arte e base para objetos mais complexos. Estudante de arquitetura, Rodrigo começou a praticar sozinho, buscando aprofundar a técnica em livros e hoje, aos 22 anos, nunca quis montar ateliê, mas continua com o hobby.

O interesse de Rodrigo pelas dobraduras, assim como o de outros praticantes, vem da complexidade. Para montar peças com maior grau de dificuldade, necessita-se de horas e até dias trabalhando no mesmo objeto, fazendo da arte um desafio. “É complicado entender os diagramas no início porque não termos o costume de visualização espacial. O manuseio do papel também é difícil, principalmente em dobras mais complexas, pois é preciso saber até que ponto o papel agüentará sem rasgar”, explica Rodrigo. A sua prática não tem interesses comerciais. “Nunca vendi. Nunca consegui dar valor em dinheiro para as minhas peças, então sempre dou de presente”, conta.

Assim como Rodrigo, Yuka Matsumoto é apaixonada pela complexidade do origami. Dobrando há pouco mais de um ano, buscou aprofundar seu conhecimento com amigos, livros e Internet. Para dimensionar o grau de dificuldade do seu trabalho, um comparativo: um peixe, um dos objetos básicos, necessita de 13 dobras. O tsuru leva em torno de 50. Os dragões de Yuka podem levar mais de 200.

Com exposição permanente no restaurante Sushi Yoshi, no bairro de Boa Viagem, zona sul do Recife, Yuka dobra de tudo, desde pequenas aves à boneca Hello Kitty. Para tal, basta receber a encomenda e um tempo hábil para desenvolver a técnica. “Gosto mais de fazer bichos e bonecos, tudo no estilo modular”, conta a artista, referindo-se às peças isoladas que se encaixam para montar um único objeto. Vendo o interesse das pessoas por sua arte, começou a comercializar obras no restaurante da família, no seu site, o http://yukaorigami.multiply.com, e em eventos em que é convidada a expor.

Decoração de ambientes

Com origami é possível fazer de tudo, basta papel e criatividade. Um dos objetos mais simples para decoração é um móbile: conjunto de peças isoladas presas a uma corda. Juntando-se três estrelas e um tsuru, já se consegue formar um móbile. Estes, em grande quantidade em uma sala, formam um belo ambiente decorativo.

Adornar ambientes é uma das atribuições do origami e é nisto que consiste o trabalho da origamista Eva Duarte. Jornalista de formação, deixou seu último emprego na área há quatro anos para dedicar-se exclusivamente às dobras. Depois de vender muitos móbiles, surgiram convites para ambientar eventos, como a decoração do Dias dos Namorados de 2007 do Plaza Shopping, e o palco da gravação do DVD da banda Nós4, em Gravatá, no início deste ano. “Para quem tem tempo, decoração é o ramo mais rentável. Mas não pode ser um hobby, pois precisa de dedicação quase total”, explica Eva.

Com um blog dedicado exclusivamente aos seus trabalhos, o Dobrinhas (http://dobrinhas.blogspot.com), Eva conheceu o origami através de amigos. Começou como um hobby para equilibrar o temperamento inquieto. Aos poucos, aperfeiçoou a técnica até tornar-se nome de referência no cenário local. Usando a Internet e livros, aprendeu obras complexas, como caixa estrela e lustres, além de suvenires, como chaveiros, brincos e porta-jóias. Atualmente vende para todo o Brasil e ministra oficinas esporadicamente, mas diz gostar mesmo é de dobrar.

Entre os origamistas, há uma dificuldade unânime: valorar financeiramente a obra. O público tende, por ser uma arte feita de papel, a não valorizar o trabalho, apenas os custos. “O valor de cada peça que vendo é inferior ao trabalho dedicado na produção. Se elevar muito o preço as pessoas não compram, pois a matéria-prima é barata e muitos não valorizam o trabalho artesanal”, comenta a origamista Yuka.

Quando se trata de contabilizar gastos, o origami é uma das artes de menor custo conhecidas. Uma folha de papel colorida Color Plus, preferida dos dobradores pela sua espessura, que facilita as dobras, custa em média dois reais. Com uma folha pode-se dobrar 12 objetos em formato 10x10 cm, já montando um móbile. “O lucro é cem por cento, considerando apenas o custo do papel”, conta a origamista Laura Manzi. Publicitária atuante no mercado local, mantém o comércio de origamis como um ‘hobby criativo’. “Em um móbile gasto cinco reais, com papel e embalagem, e vendo por dez”, contabiliza.

Vendas online

Para aumentar seu faturamento, Laura usa a Internet para divulgação. Com uma galeria de fotos de seus trabalhos, (flickr.com/photos/flordodia), comemora o sucesso da exposição na rede. Em três anos, teve mais de 16 mil visitas e encomendas para Rio de Janeiro, São Paulo e Santa Catarina. “Os mais pedidos são flores, móbiles com borboletas, tsurus ou estrelas”, enumera. A rede, por sinal, é uma das ferramentas mais utilizadas pelos origamistas. “Na internet divulgamos para outros estados, o que possibilita a comercialização profissional”, comenta Laura Manzi.

Para quem quer pesquisar e também aprender a dobrar origami, a rede é uma boa fonte de informações, com modelos passo-a-passo e galerias de fotos. O site Origami Clube (http://www.origami-club.com/en), por exemplo, mostra em detalhes, com animações e diagramas, como dobrar objetos. Mas algumas peças são difíceis de visualizar apenas na tela, necessita-se de instrução pessoal.

O método de aprendizado mais comum no Brasil são as oficinas. Naquelas ministradas por Eva Duarte, é possível aprender a fabricar peças complexas, como kusudamas (porta ervas medicinais, tradicional no Oriente), caixas, entre outros. Eva já ministrou oficinas em restaurantes e no Museu Ricardo Brennand. Atualmente, está elaborando aulas de dobraduras de objetos mais complexos para os já iniciados na arte. “É um dos benefícios da arte: transmitir conhecimento. É assim que os orientais fazem até hoje e tento sempre fazer isso no meu trabalho”, diz Eva.

Benefícios do origami

Os origamistas costumam destacar os benefícios trazidos ao corpo pela técnica, como concentração, coordenação motora, estimular a criatividade, entre outros. “É uma ótima terapia anti-estresse e um bom passatempo nas horas em que você está sem idéias”, comenta o origamista Rodrigo.

Alguns terapeutas recomendam a prática do origami para relaxamento, assim como alguns a procuram espontaneamente pelo mesmo motivo. “Mudei depois que comecei a dobrar. Era agitada e hoje estou mais calma, passo horas me dedicando a apenas uma peça, fato impossível antes de começar a dobrar”, conta Eva.

No Japão, o origami é matéria curricular do ensino básico e arte bastante difundida e incentivada. Seus benefícios são ressaltados pelos praticantes e quase toda a população sabe dobrar. No mundo, a arte é bastante conhecida, tendo até o Dia Mundial do Origami, celebrado em 24 de outubro, em homenagem ao nascimento da origamista Lilian Oppenheimer, falecida em 1992 e fundadora do primeiro grupo de origami na América. No Japão, a comemoração acontece no dia 11 de novembro, uma referência ao dia em que a figura do tsuru foi nomeada símbolo da paz.

Borboleta



Minha primeiro borboleta. De degrau em degrau eu chego ao topo do Cristo carioca.

Tsuru

A foto ficou péssima, mas fiquei orgulhosa do móbile.

Fim de semana prolongado

Fim de semana é para descanso e também dobrar. Alguns dia de viagem e os apaixonados pelo origami levam seus papeizinhos cortados dentro da mala. Ainda saiu uma estrela linda para a prima!





Tsurus



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Há uma lenda que foi concebida na antiguidade sobre o tsuru (cegonha). Ela nos diz que aquele que fizer mil dobraduras do tsuru, pensando em um desejo que queira alcançar, terá bom resultados, porque na sua própria representação ele traz sorte, felicidade e saúde.

Kusudama

Depois de horas tentando, dias sem olhar para a cara dos 30 pedacinhos dobrados, finalmente o Kusudama pronto. Meu primeiro kusudama, vamos ver se sai o segundo, ne! Rsrsrs!

De mim para mim

Nas madrugadas longas de insônia, o hobby é dobrar!